Silêncio, o filme sobre jesuítas no Japão

O padre jesuíta James Martin, consultor de Martin Scorsese para o filme “Silence” (Silêncio), destaca um projeto que “interpela profundamente a fé e a vida” e que desafiou os atores na sua “espiritualidade”.
A nova obra do realizador norte-americano, baseada em fatos reais, conta a história dos missionários jesuítas portugueses no Japão e a perseguição movida aos cristãos naquele país, durante o século XVII.
Numa entrevista difundida através das redes sociais pela Companhia de Jesus em Portugal, o padre James Martin aponta três questões fundamentais presentes na nova obra de Martin Scorsese.
Em primeiro lugar “o que é que Deus pede” a cada pessoa e como lidar quando esta pergunta parece ter apenas como resposta “o silêncio”.
O enredo do filme parte da figura do jesuíta Cristóvão Ferreira (1580-1650), interpretada por Liam Neeson, um missionário português que terá renunciado à fé cristã depois de ter sido torturado.
Acompanha ainda o percurso de outros dois missionários que a Companhia de Jesus envia à procura de Cristóvão Ferreira, nesta caso duas personagens fictícias, Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe, assumidas pelos atores Andrew Garfield e Adam Driver.
“ A apostasia não é uma coisa boa”, mas aqui “aparece como expressão de compaixão”, diz o padre James Martin, lembrando que “os inquiridores japoneses diziam aos jesuítas que se não negassem a fé eles fariam mal aos cristãos”.
Sebastião Rodrigues, a personagem principal do filme, interpretada por Andrew Garfield, é a expressão mais visível desta luta interior, deste esforço em perceber o que Deus pede em determinada situação, neste caso na situação limite de “renunciar à fé”.
“Rodrigues chega a um ponto em que a coisa certa a fazer parece ir contra tudo aquilo que lhe foi ensinado, contra aquilo que a cultura cristã diria ser a atitude correta a tomar, e até os seus colegas jesuítas em Portugal”, refere o padre James Martin.
Daí que o filme ‘Silence’ também coloque questões essenciais relacionadas com a “fidelidade” e a “missão”.
“Hoje em dia o trabalho missionário é frequentemente denegrido e mesmo atacado. Mas eu costumo perguntar às pessoas; deixariam tudo para trás para viajarem para o outro lado do mundo, para proclamarem com risco de vida o Evangelho a pessoas que, na vossa pátria, a maioria pensa que nem são dignas de evangelização? Para mim os missionários continuam a ser grandes heróis”, sustenta o padre James Martin.
O sacerdote jesuíta ajudou o realizador Martins Scorsese e o argumentista Jay Cocks no aperfeiçoamento do guião original.
“Basicamente o que queriam saber era o que é que um jesuíta pensaria em determinada situação, o que é que faria, o que diria e mesmo como rezaria”, explica o membro da Companhia de Jesus, que partilha o desafio que este projeto representou para os atores e sobretudo para Andrew Garfield.
Para ajudá-los a entender o seu papel, o sacerdote trabalhou com eles os chamados ‘Exercícios Espirituais’, uma prática de oração criada por Santo Inácio de Loiola, o fundador da Companhia de Jesus.
“Percorremos todas as etapas dos exercícios, desde o início ao fim, durante vários meses, o que permitiu ao Andrew entender o seu papel mas também foi uma experiência muito pessoal para ele. Uma vez mergulhando nos exercícios deixa de ser apenas um projeto a fazer mas também algo entre nós e Deus”, frisa o padre James Martin.
Com um orçamento de cerca de 50 milhões de dólares, o novo filme de Martin Scorsese, estreia esta quinta-feira dia 09/03 no Brasil.